É hora de ressuscitar: voltemos ao Pai!

(Grupo de Reflexão Bíblico-litúrgica | Diocese de São Carlos)
O quarto domingo da Quaresma, também chamado de “Domingo Laetare”, ilumina este itinerário penitencial com o esplendor da Misericórdia Divina. O Evangelho de Lucas (15,1-3.11-32) narra a parábola do filho pródigo, revelando o coração compassivo do Pai e a necessidade da conversão autêntica. A Quaresma se aproxima do seu termo, e a urgência da resposta ao chamado de Deus torna-se ainda mais urgente.
O texto está inserido no contexto da tensão entre Nosso Senhor e o partido dos fariseus, que o acusavam de acolher pecadores e comer com eles. A resposta do Mestre vem em forma de parábola – um recurso sapiencial que interpela e transforma. No texto, há três personagens centrais: o pai (imagem do próprio Deus); o filho mais novo (que simboliza os pecadores arrependidos); e o filho mais velho (representando aqueles que, embora próximos fisicamente do pai, estão distantes espiritualmente). A jornada do filho mais novo reflete o drama da liberdade humana. Ao exigir a herança, age como se o pai já estivesse morto, rompendo laços e partindo para uma terra distante. O afastamento do lar paterno representa o exílio interior do pecado, que leva à miséria e à degradação. O termo grego “dissipou” indica um desperdício total, não apenas material, mas existencial. O “fundo do poço” se manifesta quando, privado de tudo, o jovem se vê obrigado a cuidar de porcos, animal impuro para os judeus. A fome física é análoga à carência espiritual, tornando-o capaz de reconsiderar sua condição e desejar o retorno.
O texto, ainda, destaca o verbo “levantar-se”, que na tradição escriturística está associado à ressurreição. O filho não apenas decide voltar, mas inicia um caminho de restauração. Sua confissão é sincera, mas antes que conclua sua súplica, o pai corre ao seu encontro, abraça-o e o reveste com sinais de dignidade: a túnica, o anel e as sandálias. A pressa do pai em acolher o filho ilustra a prontidão divina em perdoar, sem recriminações. São João Crisóstomo comenta que Deus não responde ao pecador com palavras, mas com o efeito poderoso da sua misericórdia [1]. O filho mais velho, por sua vez, representa aqueles que, embora fiéis às normas, desconhecem o verdadeiro coração do Pai. Sua revolta evidencia uma relação baseada na servidão, e não no amor filial. A exortação do pai: “Tudo o que é meu é teu” é um convite à alegria da reconciliação e firme participação na filiação.
Hoje essa parábola interpela a comunidade cristã a ser reflexo da misericórdia do Pai. Muitos vivem à margem, temendo retornar à casa paterna por julgarem-se indignos. A Igreja é chamada a ser sinal visível dessa acolhida, promovendo gestos concretos de reconciliação, especialmente no sacramento da Confissão. A missão não é apenas esperar que os afastados retornem, mas ir ao seu encontro, como o pai que corre para abraçar o filho perdido. Espiritualmente, a conversão exige um movimento interior de reconhecimento da própria miséria e confiança na bondade divina. O tempo quaresmal, breve e intenso, clama por decisões concretas. A alegria deste domingo não é um alívio momentâneo, mas a antecipação da plenitude pascal que aguarda aqueles que aceitam a reconciliação com Deus e com os irmãos por causa de Deus.
Portanto, recebemos um anúncio vivo da Boa Nova: Deus não apenas perdoa, mas restaura. A morte espiritual dá lugar à vida nova, e a comunhão outrora rompida é plenamente restabelecida. O banquete preparado pelo Pai é imagem do Reino, onde há mais alegria por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão. O convite permanece: levantar-se e voltar para a casa do Pai, pois Ele sempre espera.
Nota:
[1] Escreve São João Crisóstomo: “O pai em seguida não dirigiu-lhe nenhuma exortação, mas falou imediatamente a seus servos, porque o pecador penitente põe-se inteiro na oração; e não recebe a resposta almejada à força de palavras, mas a percebe internamente nos efeitos poderosos da misericórdia divina. Porém o pai disse aos seus servos: ‘Trazei depressa o vestido mais precioso, vesti-lho […]”