Diocese São Carlos mar 21, 2025

Deus nos punir é uma misericórdia!

Deus nos punir é uma misericórdia!

Diante das tragédias humanas, surge a pergunta inevitável: seriam essas fatalidades um castigo de Deus? No Evangelho deste domingo, a menção aos galileus mortos por Pilatos e às vítimas da torre de Siloé reflete essa inquietação. Jesus, porém, rejeita a visão retributiva e convida à conversão. Não se trata de buscar culpados, mas de reconhecer que a existência é efêmera e que o tempo presente é ocasião de mudança.

A parábola da figueira estéril aprofunda esse ensinamento. A árvore, apesar de bem plantada, não produz frutos. O proprietário deseja cortá-la, mas o vinhateiro intercede, pede tempo e promete cuidados. Essa paciência divina manifesta a lógica da misericórdia. A justiça de Deus não é imediatista nem vingativa; é pedagógica e espera a resposta do coração humano.

A figueira simboliza Israel, chamado a dar frutos de justiça, mas também a cada pessoa, convidada à conversão. A intercessão do vinhateiro indica a mediação de Nosso Senhor Jesus Cristo, que continuamente obtém para a humanidade o tempo da graça. A menção ao trabalho do agricultor – cavar e adubar a terra – evoca a ação transformadora da Palavra de Deus e da graça, que, ao encontrarem terreno fértil, tornam possível uma vida frutífera.

A Liturgia, assim, recorda a necessidade de um anúncio que não se limite à denúncia do pecado, mas que ofereça caminhos concretos de conversão. A paciência divina não deve ser interpretada como conivência com a “paralisia” espiritual, mas como oportunidade para uma mudança real. Cabe à Santa Igreja ser mediadora dessa paciência, promovendo um ambiente de acolhida e renovação, sobremodo pelos Sacramentos dos quais é fidedigna e única despenseira.

Ensina Santo Agostinho [1] que a conversão exige humildade. Cavar a terra simboliza rebaixar-se, reconhecer as próprias fraquezas e deixar-se transformar. O esterco, metáfora do sofrimento e da penitência, aponta para uma purificação que, embora custosa, conduz à fecundidade espiritual. A dor do arrependimento, vivida com sinceridade, torna-se o adubo que permite uma vida nova. Eis a máxima a ser vivida nessa quaresma!

A Liturgia, assim, proclama que Deus não se compraz na perdição do pecador, mas deseja sua vida. A paciência divina, longe de ser passividade, é expressão do amor que oferece nova oportunidade. O chamado à conversão não é uma ameaça, mas um convite à liberdade verdadeira. Todo aquele que se abre à ação da graça experimentará o fruto da salvação, a eficácia transformadora do Perdão.

Nota:

[1] Escreve Santo Agostinho: “O fazendeiro, que intercede é todo santo que, dentro da Igreja, ora pelos que estão fora da Igreja, dizendo: Senhor, deixa ela por este ano, isto é, neste tempo da graça, enquanto eu a cavo em roda. Cavar em roda é ensinar a humildade e a paciência, pois a terra escavada é humilde, baixa. O esterco deve ser entendido em bom sentido: é sujeira, mas dá frutos; a sujeira do cultivador é a dor do pecador. Ora, os que fazem penitência, façam-no na sujeira e façam-no em verdade.

(Grupo de Reflexão Bíblico-litúrgica | Diocese de São Carlos)

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